Rotina

Seguindo com a nova talvez rotina de publicações do blog, gostaria de apresentar a vocês o segundo conto que compõe o E-book Contos dos isolamento.

Até que um dia ele perdeu sua rotina. Foi roubada. Tirada de suas manhãs. Não tinha mais cachorrinho no ipê amarelo, sem chimarrão depois do almoço na escola e também restaurantes estavam proibidos. Nunca quisera tanto ter de enfiar o dedão em um leitor vermelho grudado na parede. Os despertadores perderam o sentido. Não podia mais sair de casa. Tudo que precisava era uma caminhada no parque, mas era proibido.

Rotina.

Esse conto serviu para mim como um desabafo depois de passar alguns dias pensando sobre o que estava acontecendo naqueles primeiros meses de incertezas que a pandemia trouxe.

Como muitas pessoas, eu me senti atordoado no início da pandemia, mas sempre tentei levar as coisas com um otimismo que depois de um tempo começou a me parecer uma hipocrisia sem fim. Depois de um ano completado desde o registo do primeiro caso de Covid-19 no Brasil eu percebi que as coisas vão demorar muito para melhorar por aqui. É uma triste realidade, mas o negacionismo não é o caminho.

Também é preciso dar nome ao culpado pelo que estamos vivendo no país: Jair Messias Bolsonaro. Podemos ainda gerenciar essa culpa a milhares de pessoas que não respeitam o distanciamento social ou que contribuem para as mentiras estratégicas do presidente, mas isso diminui a culpa de Bolsonaro.

Atualmente o Brasil vem enfrentando uma triste situação gerada pela falta de noção de muitas pessoas e a total falta de organização do governo. Lockdown no Brasil não parece ser uma opção para o presidente que insiste em colocar milhares de vidas em risco. Em 2020 eu estava empregado e fiquei o tempo que foi possível em isolamento. Daí comecei este blog. Atualmente eu estou desempregado e voltei à rotina de isolamento em casa, mas dessa vez por conta do desemprego. A partir daí tento todas as semanas uma rotina que me ajude a manter minhas obrigações mais básicas organizadas, como a graduação em Letras. Tento permanecer o maior tempo possível sem sair de casa, fazendo somente quando o necessário, como ir ao mercado. Única atividade que não se enquadra no quesito essencial é sair para correr, mas sempre de máscara. Essa é a única atividade física que faço do lado de fora. Abdiquei de frequentar a academia e agora faço exercícios em casa com o auxílio de um aplicativo.

Perder o emprego esse ano foi um verdadeiro golpe que me desestabilizou por um breve momento. Mas com o auxílio deste blog e minhas histórias eu tenho um pequeno motivo de esperança e algo para me apoiar nos dias de ansiedade.

Uso defensivo

Nunca imaginei que estaria separando um espaço na minha gaveta de meias para a pilha de máscaras que acumulei nas últimas semanas. Elas são inúmeras, mais do que uma para os dias da semana. Suas estampas são as mais variadas. Vêm de diversas fontes, desde uma comprada na farmácia até aquelas confeccionadas pela minha tia, que é costureira. Mas elas compartilham um único propósito: a proteção contra o coronavírus.

Porém isso não impede que a máscara vire um adereço fashion, ganhando a cor e vida características do povo brasileiro. As estampas podem variar asim como as texturas. Estampas lisas e diferentes tipos de elásticos também entram na jogada. Algumas mais confortáveis do que outras, até mesmo podendo variar em nível de proteção. Mas as máscaras tem um fato fundamental que podem definir definitivamente a eficácia da proteção: o modo de usar.

Assim como no trânsito. Sim, porque os carros não andam sozinhos por aí. A mão humana atrás do voltante é o que decide se o carro irá promover um agradável passeio ao parque ou se ele será uma arma mortífera. Na autoescola, aprendemos que a maneira correta de dirigir é aquela na qual o motorista pratica a direção defensiva, cuidando não só de sua vida, como também de outros motoristas e pedestres.

Claro, de nada adiantaria comprar um carro super seguro, com air bags e rodas de liga leve para sair por aí atropelando todo mundo. Também não há motivos para ter um carro do ano simplesmente para não respeitar sinalização de trânsito alguma. Assim como não adianta nada ostentar uma máscara de tecido caro, bordada e combinando com o outfit sendo que o nariz está para fora. Ou mesmo uma máscara mais simples, mas ficar retirando a qualquer momento para falar ou “dar uma respiradinha”. Também é necessário trocar de máscara durante o dia a dia, porque ela perde o efeito de proteção ao ficar úmida. São pequenas ações que podem salvar vidas.

Se não podemos ficar em isolamento social, que tenhamos o mínimo de respeito pelos outros ao utilizar as máscaras de forma correta. Assim como no trânsito, nós carregamos uma tremenda responsabilidade. A segurança de outras pessoas depende de nós, assim como nós dependemos dos outros para manter nossa saúde em segurança.

Organizar a cabeça

A pandemia do novo coronavírus veio para mudanças, isso é verdade. Estamos testemunhando algo que nunca pensamos vivenciar. E isso é a pior coisa do mundo para alguém ansioso. Viver na incerteza gera um desespero imensurável em nossas mentes. Diferentemente dos anos anteriores, as novas incertezas foram aglutinadas em poucos meses e jogadas como bombas porta adentro.

Muitos de nós contávamos com a rotina estabelecida que por vezes contribuía para os prazos e limites serem alcançados sem noites de insônia. Mas, de uma hora para outra, perdemos tudo que nos fazia manter a pouca calma. E agora? Como vai ser? Mudou tudo.

O pior é não saber quando isso vai terminar. Vamos nos deitar para tentar alcançar o sonho dos anjos pensando meses, anos à frente. E com isso o sono perde seu lugar: fica a ansiedade. Antes vencíamos a ansiedade da noite anterior naquela mesma semana, agora não temos mais essa possibilidade. Temos a nossa frente um período que não se sabe o tamanho.

Teremos, então, de pensar novos meios de não perder a cabeça? Provavelmente. Mas para mim, eu sigo fazendo a mesma coisa: listas de afazeres que jamais serão concluídas. Essa foi a maneira que eu encontrei de organizar a minha mente e vem funcionando, mesmo em tempos de coronavírus.

 A ideia é organizar a cabeça colocando tudo no papel. Mas antes de começar a produção da lista você deve fazer um acordo consigo mesmo: não há obrigação em concluir a lista. É um pacto que deve ser levado a sério.

Quando nos dispomos a materializar tudo aquilo que está em nossa cabeça, o montante de coisas pode ser alarmante, mas o propósito não é concluir, é aliviar. O caos que são nossos pensamentos de repente ganham ordem através dos tópicos em uma folha. Aí fica fácil perceber o que realmente precisa ganhar nossa atenção e o que não faz o menor sentido estar nos aterrorizando naquele momento. Eu sei como é sofrer por antecedência.

Claro, ansiedade é um quadro clínico sério. Devemos sempre procurar os caminhos da terapia e profissionais da saúde. Mas, às vezes, somos pegos de surpresa. Nesses momentos o que precisamos é organizar nossa cabeça. Ou pelo menos tentar.