Tudo tem limite

Há muitos anos, uma grande amiga minha compartilhou comigo um vídeo da Regina Duarte postado pela TV Caras no YouTube. À época, demos boas risadas. No vídeo, Regina dançava de uma maneira mais do que bizarra ao som de uma melodia no mínimo entediante no Castelo da Caras, em Nova York. “Não resisti, fui lá e dancei”, uma das frases ditas pela atriz durante o vídeo que ficou imortalizada nas rodas de deboche por nós.

Mas os últimos acontecimentos envolvendo a atriz não causam nenhum entretimento, no máximo um deboche triste da realidade na qual vivemos. Suas opiniões públicas a respeito da política brasileira já eram suficientes para causar um certo nível de incômodo e asco, mas desde que Regina Duarte largou seu contrato com a Globo para escalar cargos no governo Bolsonaro, ela não deu uma dentro, mesmo.

Em entrevista recente à CNN, Regina Duarte deu um show de horrores. Ao ver a mensagem lúcida da colega de profissão, Maitê Proença, Regina deu um chilique digno de qualquer bolsonarista ofendido. Tirou o microfone para não ouvir as palavras de Maitê, esperneou e provavelmente gritou – felizmente o áudio de Duarte estava desligado.

Em vídeo, Maitê cobrou da Secretaria Especial de Cultura e do governo Bolsonaro um posicionamento a respeito das dificuldades que a classe teatral tem enfrentado com a pandemia. Isso foi o suficiente para Regina Duarte agir como uma criança, assim como a maioria dos aliados de Bolsonaro. Até aqui não há surpresas.

Poderíamos ter ficado apenas com a reação infantil da secretária especial, mas Regina Duarte foi além. Saudou o Regime Militar, cantando a marchinha “Pra Frente Brasil”, minimizou não só as mortes pelas mãos dos torturadores, como fez alusão aos massacres de Stalin, Hitler, como se ceifar a vida de pessoas fosse algo assim, natural. Era isso que alegava, quando falava em “se você falar vida, do lado tem morte”. Assassinatos não são naturais. Mortes por descaso do governo não são naturais. Nesse momento, eu tive pena do repórter, Daniel Adjuto, que teve de testemunhar pessoalmente tamanha falta de caráter.

Vou deixar o link da entrevista na íntegra no final da publicação. Se você quiser ir direto para a parte citada, comece aos 21 minutos. Avance para o fim e veja o chilique, também.

Não conseguir ouvir opiniões contrárias às suas sem dar chilique não chega a ser crime, apenas mostra o mau cartismo mesmo. Mas isso podemos deixar passar. O que não podemos é banalizar o saudosismo pela Ditadura Militar de personalidades conhecidas, que dão palco e apoio a ideias antidemocráticas. Tudo tem limite. Regina Duarte, como integrante do Governo, deve explicações a sua fala. Sua postura antidemocrática também deve ser analisada sob um viés judicial, já que é uma figura pública e, afinal, ocupa um cargo público. Não podemos deixar que certos ideais sejam banalizados. Ditadura nunca mais.

Continue lendo “Tudo tem limite”

Maré alta

Diversas personalidades da direita bolsonarista, que votaram em Bolsonaro, já expõe sua grande insatisfação com o andamento que o Presidente tem dado ao seu governo. A promessa de uma nova política caiu por terra depois do recente flerte com o centrão; as escolhas dos ministros deixaram muito a desejar e a forte instabilidade dos cargos faz a credibilidade de uma equipe governamental cair abaixo de zero.

Dia após dia, acompanhamos as polaridades entre mistros indo cegamente atrás de Bolsonaro, e aqueles que já estão abandonando o navio. Mas, além disso, ainda temos acompanhado as fortes investidas do STF contra decisões do Presidente. Alguns julgam essas interferências como absurdas e outros apoiam simplesmente por irem contra Bolsonaro.

Mas o fato é que o castelinho de areia está se desfazendo. Se Bolsonaro fosse um político sério, ele mudaria sua postura e começaria a refazer a base de seu governo. Mas isso não vai acontecer. Somos governados por uma pessoa extremamente mimada e teimosa. Outra coisa que Bolsonaro poderia fazer era nos poupar de mais um desgaste que um processo de impeachment gera e renunciar logo. Mas isso também não vai acontecer.

Vamos aguardar a maré subir e engolir o frágil castelinho de areia do governo Bolsonaro. Enquanto isso, a Covid-19 toma conta de nossas ruas. Tudo que podemos fazer para nos salvar é ir contra absolutamente tudo que o Presidente da República declarar em tempos pandemia.