Morno

Não existe maior decepção do que receber uma marmita morna. Muitas vezes não é culpa de ninguém, apenas uma casualidade do cotidiano. Você está ali, são 10h e você não encomendou seu almoço no aplicativo ainda. Está enjoado de pedir sempre do mesmo lugar, já decorou a disposição dos alimentos dentro da embalagem de isopor. Lembra de um restaurante que tinha ido pela primeira vez logo antes da pandemia e pensa “o que eu não daria para comer aquela comida de novo?”. Aceitando a derrota alimentar, vai para o aplicativo fazer o pedido. Depara-se, então, com o restaurante oferecendo entregas pelo aplicativo. Vitória. Mas será, mesmo? São 10:57 agora. Só vou saber ao meio dia.

Mas sobre o depoimento de Moro eu já posso afirmar: a encomenda veio morna. Depois de oito horas de depoimento no último sábado (2), Moro não apresentou nenhuma prova concreta, apenas mais do mesmo: mensagens de WhatsApp que, aliás, o ex-juiz disse apagar com frequência: só havia disponível as últimas conversas de 15 dias anteriores.

Esperava-se que Moro agisse como um Juiz. Ou talvez não. Se levarmos em consideração a postura que Moro assumiu à frente da Lava-Jato, ele está sendo coerente com sua biografia: deixar que outros concluam por ele o que acusou. Ao depor, Sérgio Moro disse que não acusou o presidente de crime algum. Segundo ele, quem falou em crime foi a Procuradoria-Geral da República. Passou sua responsabilidade para terceiros.

Mas há precedentes para Moro agir assim. Ele, na verdade, está tirando seu nome do governo mais fraco que o Brasil já viu desde sua redemocratização. O paladino da presidência tenta manter sua integridade moral, mas não pode ir de frente com Bolsonaro, ele precisa de todos os apoiadores para 2022. Moro não é o herói, é mais um covarde do governo que deixará um legado de instabilidade, controvérsias e fraqueza. Moro é a marmita morna que temos de engolir, pois pagamos por ela. Alguns, como eu, não pediram, mas acabamos por dividir o frete.

Maré alta

Diversas personalidades da direita bolsonarista, que votaram em Bolsonaro, já expõe sua grande insatisfação com o andamento que o Presidente tem dado ao seu governo. A promessa de uma nova política caiu por terra depois do recente flerte com o centrão; as escolhas dos ministros deixaram muito a desejar e a forte instabilidade dos cargos faz a credibilidade de uma equipe governamental cair abaixo de zero.

Dia após dia, acompanhamos as polaridades entre mistros indo cegamente atrás de Bolsonaro, e aqueles que já estão abandonando o navio. Mas, além disso, ainda temos acompanhado as fortes investidas do STF contra decisões do Presidente. Alguns julgam essas interferências como absurdas e outros apoiam simplesmente por irem contra Bolsonaro.

Mas o fato é que o castelinho de areia está se desfazendo. Se Bolsonaro fosse um político sério, ele mudaria sua postura e começaria a refazer a base de seu governo. Mas isso não vai acontecer. Somos governados por uma pessoa extremamente mimada e teimosa. Outra coisa que Bolsonaro poderia fazer era nos poupar de mais um desgaste que um processo de impeachment gera e renunciar logo. Mas isso também não vai acontecer.

Vamos aguardar a maré subir e engolir o frágil castelinho de areia do governo Bolsonaro. Enquanto isso, a Covid-19 toma conta de nossas ruas. Tudo que podemos fazer para nos salvar é ir contra absolutamente tudo que o Presidente da República declarar em tempos pandemia.

Organizar a cabeça

A pandemia do novo coronavírus veio para mudanças, isso é verdade. Estamos testemunhando algo que nunca pensamos vivenciar. E isso é a pior coisa do mundo para alguém ansioso. Viver na incerteza gera um desespero imensurável em nossas mentes. Diferentemente dos anos anteriores, as novas incertezas foram aglutinadas em poucos meses e jogadas como bombas porta adentro.

Muitos de nós contávamos com a rotina estabelecida que por vezes contribuía para os prazos e limites serem alcançados sem noites de insônia. Mas, de uma hora para outra, perdemos tudo que nos fazia manter a pouca calma. E agora? Como vai ser? Mudou tudo.

O pior é não saber quando isso vai terminar. Vamos nos deitar para tentar alcançar o sonho dos anjos pensando meses, anos à frente. E com isso o sono perde seu lugar: fica a ansiedade. Antes vencíamos a ansiedade da noite anterior naquela mesma semana, agora não temos mais essa possibilidade. Temos a nossa frente um período que não se sabe o tamanho.

Teremos, então, de pensar novos meios de não perder a cabeça? Provavelmente. Mas para mim, eu sigo fazendo a mesma coisa: listas de afazeres que jamais serão concluídas. Essa foi a maneira que eu encontrei de organizar a minha mente e vem funcionando, mesmo em tempos de coronavírus.

 A ideia é organizar a cabeça colocando tudo no papel. Mas antes de começar a produção da lista você deve fazer um acordo consigo mesmo: não há obrigação em concluir a lista. É um pacto que deve ser levado a sério.

Quando nos dispomos a materializar tudo aquilo que está em nossa cabeça, o montante de coisas pode ser alarmante, mas o propósito não é concluir, é aliviar. O caos que são nossos pensamentos de repente ganham ordem através dos tópicos em uma folha. Aí fica fácil perceber o que realmente precisa ganhar nossa atenção e o que não faz o menor sentido estar nos aterrorizando naquele momento. Eu sei como é sofrer por antecedência.

Claro, ansiedade é um quadro clínico sério. Devemos sempre procurar os caminhos da terapia e profissionais da saúde. Mas, às vezes, somos pegos de surpresa. Nesses momentos o que precisamos é organizar nossa cabeça. Ou pelo menos tentar.

O entre-lugar do livro

Já vi gente orgulhar-se de ter lido 50 livros em um período do tamanho de um semestre. Acho bobagem sair lendo apenas para expor ao mundo (os amigos do Facebook) a voracidade com a qual é capaz de ler. Talvez eu não tenha lido 50 livros em cinco anos, ou talvez ainda nem tenha alcançado esse número – sou jovem, ainda.

Estou aqui relendo um livro e lembrando de uma crônica da Martha Medeiros. A leitura é algo muito íntimo, muito nosso. Temos nossos jeitos de ler, nosso tempo, nossa preparação pré-leitura: abre o livro, verifica o tamanho do capítulo, confere o número total de páginas, folheia as páginas só para sentir a textura do papel e aquele cheirinho. Ler é um ato cultural, político e íntimo.

A gente nunca lembra de tudo que lê. Esquecemos os nomes dos autores, o título da obra, principalmente se não for nenhum cânone – esses a gente não esquece autor nem título, só se vai mesmo é o enredo. Mas sempre fica alguma coisa. E o que fica é muito nosso, também. Até mesmo o Cicrano dos 50 livros deve ter duas ou três linhas especiais guardadas na memória, mesmo que seja confuso lembrar de onde.

Relendo esse livro, percebi que existem livros que a gente não está preparado para ler naquele momento. Nos falta um certo amadurecimento, mas isso a gente só descobre depois de ler. Vai sentir o baque só lá, depois. Quando alguma coisa ao nosso redor nos fizer perceber que as coisas mudaram aqui dentro.

Esses últimos dias têm sido de muita reflexão e numa dessas divagações me vi lembrando de livros que à época não tive a capacidade de absorvê-los e só fui perceber agora. Alguma coisa fez o clic e só vou descobrir depois de ler novamente. Mas não disponho aqui em casa de todos os livros que já li. Sofro, então, por não poder voltar a eles e saciar minha fome. Sinto uma culpa terrível por não ter aproveitado enquanto os tinha em mãos. Vivo os dias sob a memória dos livros, uma espécie de limbo do livro.

São os melhores livros aqueles que deixam uma marca na gente. Marca essa que só vai arder depois de muito tempo, fazendo você se sentir culpado. Não precisamos ler 50 livros em um ano, precisamos ler um bom livro que dure 50 anos em nós.

Trajeto

Hoje não sentei do lado do ônibus que dá pra ver a Lua. Apenas a vejo quando o ônibus faz o contorno de um trevo ou quando vai um pouco pro lado. Ela está bem em cima de nós, não dá pra ver. Do lado de lá também é assim durante o percurso, mas quando estamos chegando eu consigo enxergá-la, porque o ônibus faz uma curva. A Lua é o sinal de que estamos chegando em casa. Hoje eu não a verei. Tudo que vejo daqui são luzes, das casas, de uma fábrica. Tudo que passa pela minha cabeça são meus textos, que nunca sei se são uma crônica ou um conto, vai ver é por isso que não são bons. Hoje eu não verei a Lua. Se eu colocar a cabeça um pouco pro lado consigo avistá-la, mas é incômodo, sabe, ficar com a cabeça assim pro lado. Machuca. É como tentar olhar pro lado pra não te ver, é incômodo, mas necessário. A Lua está bem fininha, minguante eu imagino que seja. Mas minguante está mesmo é meu carinho por ti, que se vai, vai indo, aos poucos ele se some. Se consome. Eu vou seguir aqui, quem sabe eu coloco meus fones de ouvido para escutar um pouco de Beethoven, acho que Moonlight Sonata cai bem agora. Quem sabe eu durma. Já que não verei a Lua hoje não preciso esperá-la para chegar em casa.